O casamento
Sábado, definitivamente dia 24 de Maio de 2025, 11h45am
“Pati, mas você tem certeza que é hoje?”
Reviro os olhos e faço um biquinho de brincadeira.
Hunft.
Semi brincadeira.
Toco o interfone mais uma vez.
“É em Maio mesmo, né? Você não confundiu o mês?”, sua voz parece animada, mas o Vi não consegue esconder de mim seu nervosismo sutil. Depois de quase dez anos juntos, já ouvi essa preocupação embrenhada em tranquilidade em momentos o suficiente para praticamente vê-la no ar.
“Vinícius, é o casamento da minha melhor amiga. Eu conferi a data umas cinquenta vezes. É hoje”, respondo, deixando claro que detesto quando duvidam de mim.
Em todo caso… Não estão atendendo, é estranho mesmo.
Olho ao meu redor e vejo um pequeno Villas todo engomadinho no colo do Vi, e uma Mali meio emburrada-meio cansada, na barra da saia do meu vestido.
Decido mandar uma mensagem no grupo das madrinhas da Patie, para ter certeza de que não aconteceu algum acidente, e ver se alguém pode abrir o portão para nós.
‘Oi gente! Alguém já chegou? Estamos aqui na entrada, mas ninguém atende o interfone!’
Digito ágil com as duas mãos, fazendo jus à Patricia adolescente que simplesmente precisava mandar mensagens para o namorado de outra escola, o tempo todo no meio da aula, e não ser pega.
Logo antes de enviar, eu caio por mim.
Como é que o estacionamento estava tão vazio? Como estamos dentro do horário, e esperando aqui há uns 5 minutos, e ninguém mais chegou? Como não estão atendendo?
Apago a mensagem antes de enviar, e vou conferir mais uma vez o convite do casamento.
“25/05/2025”
É hoje. Sábado. Dia vinte e… quatro. Vinte e quatro.
“Vi, ehrm…”, mantenho a cabeça baixa, com receio de admitir meu descuido, “eu errei a data. Mil desculpas, sério! Eu tinha certeza que dia vinte e cinco era um sábado!” e ainda fiquei puta com você por ter duvidado de mim.
Com toda a desenvoltura de um Virginiano com ascendente em Sagitário, meu marido faz cara de quem já sabia, mas abre um sorriso sincero que entrega o quanto ele ainda vai me zoar por termos nos arrumado para o dia errado.
Domingo, agora sim dia 25 de Maio de 2025, 11h58am
“Não vai dar.”
“Pati, entra sem mim, eu subo depois com as crianças e fico esperando com eles até terminar a cerimônia.”
Argh. Isso não funciona. Porque raios não tenho uma máquina do tempo para fazer todo mundo se trocar cinco minutos mais cedo, e assistirmos, todos, a cerimônia?
A única coisa que a Patie falou é para chegarmos até meio dia. A única. E agora eu vou perder um dos momentos mais importantes da minha vida.
Conheci a Patie na faculdade de arquitetura e nos tornamos amigas desde o comecinho do curso. Foi a primeira vez que eu estudei com outra Patrícia (o nome dela tem acento), e me lembro de vê-la usando uma tiara da antiga (e amada) Accessorize. Me chamou a atenção primeiro porque era um item um tanto quanto extravagante, e segundo porque eu tinha uma igual.
Foi instantâneo.
Amizade por afinidade, do nome à fidelidade a nossas autenticidades.
Estamos na vida uma da outra há quase 14 anos. Passamos por altos e baixos de relacionamentos amorosos (especialmente baixos), pelas ondulações e vontades acerca de nossas carreiras (ambas ambiciosas até o último fio de cabelo), e agora que a Patie está casando parece o fim de uma Era (uma tortuosa Era, que agradeço muito por acabar!).
O fim bom de um capítulo (que convenhamos, se encerrou no momento em que ela conheceu o Doug), e o início de algo novo. Leve. Com fôlego para ser e viver e amar e ser amada. Exatamente como ela merece.
O carro para no estacionamento (dessa vez, cheio). Não sei mais que horas são, e não adianta ver o relógio porque sei que já passou do horário limite. Ainda assim, estou esperançosa com uma coisa que não mudou nesses anos todos: para compromissos pessoais, a Patie se atrasa.
Chegamos na imponente porta de ferro que guarda o prédio do casamento. Ela é decorada com arabescos e todo o requinte da antiga São Paulo, como muitas que ainda cumprem seu papel e embelezam o térreo do centro da cidade.
Dessa vez, uma mulher simpática de sorriso largo nos recepciona, e chegando junto com a gente: o pai da noiva!
Há!
Não estamos tão atrasados assim, afinal de contas.
Com um suspiro que se ajeita e encontra caminho para sair parece que do meu coração, eu relaxo.
Talvez esse relaxamento venha um pouco tarde, porque quando tenho a oportunidade de olhar no espelho do antigo elevador o que encontro é uma família (a minha), moderadamente suada (suor induzido por estresse), e meio descompensada.
E para esse quadro ficar ainda mais completo, só sobem quatro pessoas por vez na lentidão que nos transporta, então subimos eu com o Villas no meu colo, e o pai da noiva, com sua esposa e filha bebê também de colo. Sobra para o Vi subir correndo com a Mali de escada (até o quinto andar), para não atrasarmos mais.
Minha amiga e o quase quase marido são tão legais que escolheram fazer a cerimônia e recepção no apartamento deles. Tudo decorado com amor e aquele acolhimento que só algo com esse nível de significado consegue passar.
Encontro algumas de minhas amigas de faculdade reunidas ali na porta, que ao me ver no meu também costumeiro atraso, já se prontificam e cedem seus preciosos lugares sentados (nem todo mundo tem onde sentar), para que nos acomodemos. Pela segunda vez na manhã eu solto o ar com força, percebendo meu corpo se soltar junto e ficar mais à vontade a medida que ele encosta na cadeira que achei que perderia junto com o casamento.
“Xixi”, digo boquiaberta, sem conseguir acreditar no que vejo minutos depois de me sentar.
“Hã?”, o Vi me responde, distraído tentando arrumar o próprio cabelo enquanto a Mali se balança em seu colo.
“O Villas…”, olho para baixo, “Vazou a fralda dele. Tem xixi no meu vestido.”
Rapidamente trocamos de crianças, e o Vi se levanta com o Villas para encontrar um jeito de remediar a situação (descobrimos que xixi não foi a única coisa que vazou). Enquanto isso, a Mali se aninha em mim e faço o possível para que ela não encoste na parte suja da minha roupa.
Troco olhares com minhas amigas que estão sentadas a minha diagonal, e consigo apenas soltar um “é a vida com filhos!”, acompanhado de um sorriso sincero (e consideravelmente cansado também).
A verdade é que, do meu grupo de amizades, eu fui a primeira a ter filhos.
Tá, talvez não a primeira de todas, mas a primeira da faculdade E da escola onde estudei boa parte da minha vida.
A minha amiga que foi realmente a mamacita de estreia, gente do céu… Que corajosa.
É aquela máxima de “a gente não sabe o que a gente não sabe”, sabe? Mas nessa, eu fui uma ótima amiga enquanto ela estava gestante, e péssima amiga após o nascimento do meu afilhado.
Não de propósito, claro, mas o universo da maternidade não é dimensionável para quem está fora dele. Mesmo estando muito de perto. Simplesmente não dá para furar essa bolha até, bem, pertencer à ela.
Fora que ele nasceu em Novembro de 2019, e logo veio a pandemia, impossibilitando o nosso contato da única forma que eu conhecia até então: físico.
Às vezes eu tenho medo de, sem querer, desencorajar amigas ou conhecidas quando elas tem acesso somente aos pequenos recortes desafiadores como os de agora (o cabelo grudando no rosto suado ao chegar no casamento, que antes seria algo mais parecido com um penteado lindo; ou mesmo o vestido vazado de xixi de bebê). Porque por mais que a realidade não seja também os pequenos recortes de instagram (como chamo os momentos deliciosos que pais e mães postam orgulhosos em suas timelines), ela definitivamente não é só turbulência. É um misto.
Ou, melhor, uma mescla. Não é a oscilação entre ‘momentos bons’ e ‘momentos ruins’, é ter tudo junto e (bem) misturado, na maioria do tempo.
E mesmo assim, isso ser a coisa mais divina já experienciada.
Suspiro.
Resolvo vasculhar ao meu redor. O Vinícius está demorando.
A banda se ajeita, mais pessoas tomam seus lugares, e minha garganta começa a secar.
“Cururu, vamos procurar o papai e o Villas”, digo para a Mali, que gruda em meus braços enquanto a seguro no que ela chama de colo levantado, e saímos em direção ao resto do apartamento.
Pelo que me lembro das fotos e vídeos que recebi de uma Patie empolgada com a compra de sua primeira casa, estávamos na sala. A porta que pegamos nos trouxe a um corredor com mais quatro portas: uma à minha direita, e outras três, enfileiradas, à minha esquerda.
Antes de tentar a fechada à minha direita, que pela minha memória julgo ser a do banheiro, vejo que a porta do meio entre as três está aberta e caminho em sua direção, para encontrar…
Meu Deus, como descrever isso.
Vejo um Vinícius sentado em um grande sofá cinza, sem nada ao seu redor além de uma fralda cuidadosamente empacotada, apoiada no chão. E um Villas semi pelado, se contorcendo para fugir dos braços do pai que o segura entre o piso e o sofá.
Engulo em seco.
A voz na minha cabeça começa a disparar absurdos sobre como o Vi conseguiu se meter nessa situação.
O que está acontecendo? Como é que ele abre a fralda do Villas sem antes ter tudo o que precisa para trocá-lo? Qual era o plano aqui?(!)
A falação interna é tão forte que não seguro a raiva e a irritação mortal que aparecem em meu rosto.
Quase deixo sair tudo o que pensei aqui dentro, mas depois de uma ou duas frases escaparem, respiro fundo e entro no meu melhor modo: resolutiva.
“Vou dar um jeito”, digo em voz alta.
Desço a Mali do colo e saio do cômodo com o Villas sujo em meus braços.
A pressa para chegar no casamento foi tanta que esquecemos a mochila com as fraldas e lencinhos umedecidos no carro, e agora não há condições de descer o elevador dolorosamente lento, atravessar a rua e o estacionamento inteiros até o carro, e fazer o percurso de volta. A Patie e o Doug vão entrar a qualquer momento (!!!).
Isso sem falar nos meus pés, que sofreriam imensamente por causa do instrumento de tortura que eu escolhi para calçá-los.
Abro a porta misteriosa número quatro, a que julguei ser a do banheiro, e para nenhuma surpresa minha, estava certa.
Investigo o sereno ambiente, tão cuidadosamente projetado por minha amiga, tão simples-mas-perfeito para seu casamento, e tão inútil para o que eu preciso.
Estranho. Conhecendo a Patie, ela com certeza teria lencinhos umedecidos à disposição. E algodões.
Provavelmente, como a noiva, isso ainda vai chegar à festa.
Mas como não posso esperar, seguro o Villas em cima da cuba, ligo a água da torneira, e começo a lavá-lo lá mesmo (desculpe, amiga, a sua pia foi estreada com cocô! Dizem que o de pomba é boa sorte, então o de bebê deve ser sorte vezes mil).
Volto ao corredor e fecho a porta atrás de mim. Deixo o Villas novamente com o Vi e saio andando em direção a sala onde a cerimônia será conduzida.
Encontro o pai da noiva ali na entrada do apartamento e me lembro da sua filhinha bebê. Pergunto a ele se ele teria uma fralda para me emprestar e sua face atordoada, junto de uma negativa me dizem que ele claramente não é um pai de hoje em dia - mesmo sendo pai hoje em dia.
Insisto um pouco com o olhar, direcionando minha cabeça para a bolsa maternidade meticulosamente preparada que vejo ali no carrinho de sua bebê, e como se algo estalasse internamente nele, ele responde “Ah, claro!”, e se vira para a esposa, “Querida, pegue uma fralda e um lenço para a amiga da Pati, por favor!”
A esposa em questão deve ter algo entre a minha idade e a da Pri, a irmã mais velha da minha amiga, e é uma mulher linda mas de rosto um pouco severo (compreensível, visto que a carga da maternidade parece recair somente sobre ela).
Ela pega uma das fraldas pampers premium e o pacote de lenços mustela, e me entrega.
Agradeço profusamente, e prometo retornar os lencinhos já já.
Corro para o quarto onde deixei o Vi com as crianças, e apareço como a salvadora da pátria (que, confesso, tenho prazer em ser de vez em quando).
O Vi veste o Villas, enquanto uso um lencinho para limpar meu vestido, e quando me dou por mim, já estamos nos sentando em nossos lugares novamente.
Um atraso da nossa parte monumental e uma explosão escatológica depois: deu tudo certo.
A Patie e o Doug entram poucos minutos após termos retornado. Os dois são lindos, mas a Patie está deslumbrante. Uma noiva estilosa, requintada, e vibrando amor de dentro para fora e de fora para dentro.
Os votos conduzem a emoção dos convidados em um transbordo de lágrimas como uma orquestra conduz a melodia que toca, e todos nos comovemos com as palavras belas e genuínas que os noivos vociferam.
Há algo nos olhos do casal que promete o amor para além do tempo, para além dos desafios, para além da vida.
Aperto firme as mãos do meu marido, como que reforçando para ele que esses são os meus votos também, e a cerimônia acaba em um glorioso coro de emoção e felicidade.
A comida está divina, a conversa está legal demais, e o que começou no dia errado foi até bom, porque fez render ainda mais esse momento tão especial.
VIVA OS NOIVOS!



Simplesmente apaixonada! Dá vontade de continuar lendo pra sempre 🥹
escrita sensacional, nee ❤️